Raquel de Queiroz

Essa crônica e esse retrato estarão expostos no Memorial Rachel de Queiroz, em Quixadá.

O nome da escritora Rachel de Queiroz soava em minha casa de interior desde que eu era criança. Mamãe me narrava a história do livro “O quinze” enquanto fazia capitão de arroz, feijão e farinha para os filhos. Papai, um simples agricultor, comprava a revista “O cruzeiro” e logo começava a ler a última página porque se tratava da crônica de dona Rachel, como ele costumava dizer. Seu nome era tão familiar que por vezes imaginei que ela fosse irmã de mamãe.

Anos mais tarde, fui morar em Fortaleza. Vez por outra, nas aulas de Língua Portuguesa, estudava-se um romance ou uma crônica de Rachel. As redações que eu fazia, abordando qualquer texto da obra da autora, eram sempre elogiadas pelo professor. Em meu imaginário de criança, ela era uma personalidade de primeira grandeza a ser admirada por todos nós, os filhos de dona Cristina Pessoa e seu José Maria Saraiva, meus pais.

Os caminhos desta grande teia da vida nos faz próximos de uns, distantes de alguns e perdidos de outros. Como se não bastasse, a luta pela sobrevivência vem para aniquilar nossos sonhos, na maioria das vezes. É preciso paciência e bom humor para sair driblando os obstáculos que impedem vôos da liberdade. No meu caso, não fiquei longe da escrita nem da leitura. Apenas essas não estavam a serviço da ficção, por força da profissão de advogado. Permaneci assim até chegar à fase adulta: próximo dos livros de Rachel e longe dela. Recentemente me aposentei e comecei a ganhar asas.

Devido a circunstâncias profissionais, fui morar em Quixadá, Terra dos Monólitos. Era lá onde a escritora mantinha sua fazenda com o carinhoso nome de “Não me deixes”, doação de seu pai, o promotor de Direito Daniel de Queiroz. Embora ela morasse no Rio de Janeiro, uma vez por ano vinha à sua bucólica fazenda. Numa dessas suas vindas, fui convidado pelo radialista Jonas Sousa, amigo da família Queiroz, para visitá-la. Confesso que, por razões óbvias, fiquei apreensivo.

Lá estava eu diante de Rachel de Queiroz. Pensei em lhe fazer inúmeras perguntas sobre seus livros, talvez sobre o romance intitulado “Memorial de Maria Moura”, sucesso extraordinário, cuja história tem como protagonista uma mulher corajosa e inteligente que mata o padastro e se impõe em meio a um mundo de coronéis. Permaneci algum tempo ali, apenas observando a casa de tijolo batido, móveis de madeira, mesa farta, cama pequena, redes na varanda e a Remington sobre a escrivaninha. Estava envolto naquela simplicidade quando Maria Luiza, irmã de Rachel, apresentou-me a ela: “Rachelzinha, este é Saraiva Júnior, que quer lhe conhecer e contar umas histórias”. Ela fixou os olhos em mim: “Venha, meu filho!” Não me contive e chorei.
Saraiva Júnior